Em Histórias e Memórias, Flávia Joss apresenta uma coleção de crônicas autorais que narram diversas experiências vividas pela autora em seus mais variados papéis e momentos. A Flávia professora, escritora, leitora, mãe, esposa, mulher… São várias “Flávias” que, através de vários olhares e vozes convergem em si e sobre si na forma de experienciar o mundo que a cerca. O livro é dividido em duas partes, Crônicas de uma professora e Crônicas de quarentena.

Em Crônicas de uma professora, encontramos narrativas marcantes sobre a trajetória da autora em seus 26 anos de carreira docente, desde seus estudos no ensino normal (nome dado ao que seria o “ensino médio” para formação de professores primários) até suas experiências como professora do ensino público no Rio de Janeiro. Como professora, não tive como não mergulhar por inteira em cada crônica. Rir junto, chorar junto, me irritar junto… A identidade dos estudantes foi preservada, evidentemente, mas nenhuma dessas histórias existe isolada. As dificuldades, as descobertas, a inspiração da figura do professor na vida de um aluno, a forma como muitas vezes a escola é o único lugar seguro para uma criança e um adolescente, a forma como a escola e, principalmente, a fala de um professor pode mudar a vida inteira de um aluno.

Em Crônicas de quarentena outra Flávia entra em cena, mas sem deixar de lado a professora, já que a quarentena fez com que todas as nossas partes aprendessem a conviver no mesmo ambiente, não só no mesmo corpo. Nessa segunda parte, a autora compartilha suas reflexões sobre o caos do lado de fora e o caos do lado de dentro, trazendo para o leitor suas inquietações sociais e pessoais, mas também um tanto de leveza ao se permitir olhar para o cotidiano com novos olhos, lembrando um pouco os olhos curiosos de seus alunos apresentados na parte anterior.

O livro possui 140 páginas de leitura fluída com boa diagramação. A autora também pratica muita intertextualidade através de citações de textos, falas e músicas que iam atravessando suas memórias a medida que recontava alguns acontecimentos.

Indico esse livro a todos aqueles que apreciam boas crônicas, mas especialmente aos professores que descobriram a si e seus alunos como humanos com a quebra da rotina pela pandemia. A relação professor-aluno pode se automatizar como qualquer outra em qualquer profissão, mas na educação essa distância grita de forma preocupante e é preciso diminuí-la o quanto antes.

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