Estamos no início de um novo ano, 2024, celebrando também o ano novo Chinês do Dragão e nos preparativos para um novo ano astrológico guiado por Cronos (ou Saturno) e sua colheita implacável, a qual admiro imensamente. Apesar de não estarmos numa virada de estação — é alto verão nesse momento —, relembro de quando escrevi certa crônica para a Revista The Bard em dezembro de 2022. A natureza é sábia em seus processos, e venho compartilhar aqui um pouco da sabedoria que ela me proporciona diariamente.

ISSN: 2764-9768

Crônica dos refazimentos

Escrevo essa crônica enquanto penso no fim do Inverno e início da Primavera. Novos inícios costumam ser tempo de refazimentos, recomeços, florescência. Qualquer chegada do novo é marcante, mas gosto especialmente de celebrar os ciclos das estações admirando seus movimentos e, embora more na cidade grande, busco sempre um pedacinho de terra para não esquecer como o tempo realmente passa.
Os extremos da pressa e da inércia tomam conta do ritmo urbano, ao lado da miopia presente no apego ao passado ou ao futuro projetado. Ninguém escapa. Nem eu escapo. Mas dizem que qualquer grande impacto só dura um minuto e meio, a partir daí é cultivo nosso, quer seja praga ou flor. Sendo a vida feita de momentos, me pego olhando ao redor e esperando o próximo estalo desavisado de grande impacto que valha o cultivo, mas ele não vem.
Natureza sábia. Sabe que tudo aquilo que salta aos olhos passou pelos processos da passagem e, sendo o ser humano parte dela — por mais que a renegue —, este também deverá passar pelos seus processos, pelo seu próprio inverno e por um equinócio particular até chegar a florescer.
Equinócios são momentos de transição entre uma estação e outra, uma espécie de limbo em que um ciclo se fecha enquanto outro inicia. Galhos secos finalmente caem por terra e enquanto os últimos galhos caem os primeiros já despontam folhas em verde vivo anunciando a boa nova dos recomeços.

Por ser uma admiradora das plantas e ter um pequeno jardim em casa desde a época dos meus avós, sempre pude acompanhar os ciclos da natureza de perto e, mais tarde, fui estudar terapias naturais buscando internalizar esses processos. É engraçado, mas é como diz aquele meme de internet “somos plantinhas com emoções complicadas” em vários sentidos. Temos nossos ciclos internos — e como mulher ainda temos nossa lua particular —, os ciclos dos relacionamentos, os profissionais, os existenciais… Como um todo, a existência é cíclica em seu próprio tempo, porém queremos moldar o tempo ao nosso bel prazer, e é quando iniciamos o ping-pong da pressa versus inércia, do apego versus projeção. Plantinhas não sabem jogar ping-pong, apenas sofrem o impacto das bolinhas.
Sofremos quando queremos pular o limbo ou quando não queremos que ele chegue, quando não aceitamos os fins ou fugimos do novo. Cada estação tem seu tempo, cada ciclo tem sua duração, todo recomeço merece uma finalização que prepare sua chegada. Também não dá para viver no limbo para sempre. A impressão de coexistência que ele passa é, na verdade, um processo. O fim não coexiste com o início, eles apenas se saúdam e seguem seus caminhos porque o destino é o movimento.
Mover-se. Quando vejo os galhos caírem, vejo o que, finalmente, foi deixado para trás. Quando vejo as pontas verdes das folhas, suspiro pelo novo que chega. Quando a roseira do meu jardim se refaz para receber as flores da primavera, eu escolho florescer junto, esse processo chamo de florescência.
Novas folhas, novas flores, novos ares. O novo pode nos transpassar de todas as formas, se assim quisermos. Não sei você, mas eu quero.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *