Resenha: Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzche

Em Assim falou Zaratustra, Friedrich Nietzche (1884-1900) apresenta o sábio Zaratustra como personagem questionador do moralismo religioso cristão de sua época. Fora da obra de Nietzche, Zaratustra foi um profeta persa da era pré-cristã e fundador do Zoroastrismo, religião da antiga Pérsia primitiva que é semelhante ao cristianismo em muitos aspectos. O autor faz uso dessa figura para apresentar o Super-Homem, uma versão superada do homem mundano. No livro, Zaratustra é o personagem principal que narra toda a história de sua caminhada e seus diálogos com discípulos, sábios, a natureza e consigo mesmo. Este é o famoso livro em que Nietzche diz “Deus está morto”, no entanto, as críticas maiores do autor são à cegueira dos “sábios catedráticos” para a dimensão humana. É como se ele tentasse combater o extremo do misticismo com o extremo do materialismo. Nesse contexto, a figura do Super-Homem pode ser entendida como o homem-humano superando a si mesmo e, nesse caso, qualquer um pode ser um Super-Homem, embora seja doloroso e trabalhoso chegar a essa transformação final. Zaratustra não se afirma como O Super-Homem, mas afirma ser conhecedor do caminho para essa transformação. O Super-Homem é apresentado como uma nova alternativa a “salvação” do homem de si mesmo, mas ao invés de ser outro a salvar o homem, é o homem que salvando a si mesmo transforma-se em Super-Homem. É interessante também fazer uma relação entre os animais que aparecem na história e os animais-totem das religiões da antiga Pérsia. Na história, vários animais aparecem com significado simbólico, inclusive tem até um capítulo no qual Zaratustra conversa com os animais. Essa relação entre o homem e a natureza é uma forma de ligar o homem à sua natureza animal que, por mais que seja suprimida ou negada, sempre estará presente. No entanto, Zaratustra aponta uma hierarquia na qual o animal é a fase baixa ou bruta, o ser humano é uma fase de transição e o Super-Homem a transformação final. No misticismo, o que o personagem de Zaratustra mais critica é a postura hipócrita dos sábios, seus “valores e palavras ilusórias”. Para ele, a negação da animalidade humana é uma ideia absurda, até porque ao negá-la não é possível superá-la. O Super-Homem só supera sua animalidade porque a reconhece. O ponto mais controversos que encontrei na obra foram as visões machistas sobre a mulher, que é colocada como inferior ao homem-humano em diversas passagens. Embora isso seja esperado dos intelectuais de sua época, é algo que ao lermos nos dias de hoje torna essas passagens desagradáveis. O pessimismo de Nietzche aparece em algumas partes da obra como já é esperado, no entanto, as passagens nas quais o autor apresenta os argumentos de Zaratustra a favor do Super-Homem são muito interessantes de se refletir. Ao colocar o homem como o responsável por sua própria dor e cura e ressaltar os processos de transformação que levam o homem ao Super-Homem é quase impossível não refletirmos sobre nós mesmos e nossa responsabilidade sobre nossas “animalidades” e transformações. Acredito que a parte mais importante e interessante sobre o processo de transformação do homem para o Super-Homem é a capacidade de criação. Ao narrar sua trajetória de iluminação e os requisitos para o “nascimento” do Super-Homem, o personagem ressalta a necessidade de uma capacidade e vontade de criar, e como a criação é resultado de dores e destruições, é necessário que o homem conheça essas dores para criar o Super-Homem a partir delas. Assim falou Zaratustra é um livro denso que traz inúmeras reflexões e possíveis interpretações que deixariam essa resenha bem extensa. A intenção no momento é apenas instigar a curiosidade para que o leitor da resenha leia a obra de forma despretensiosa. Há certa liberdade em ler um livro desses sem tanta bagagem teórica por trás, pois com o olhar não treinado é possível enxergar múltiplos significados e interpretações para cada metáfora apresentada. Mas para quem tem essa bagagem, seria interessante se dar a chance de ler com olhos de leitor e não de teórico, se permitindo encontrar novas interpretações. “Criar é a grande emancipação da dor e do alívio da vida, mas para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações.” — F. Nietzche em Assim falou Zaratustra